A História pode não rezar dos fracos, mas com certeza que também não reza das meninas bem comportadas.
Era o Outono de 1926.
Eloise encontrava-se no seu quarto, mirando atentamente o seu reflexo no espelho . Passar máscara e carmim era simples, mas enrolar o cabelo comprido e farto precisava da ajuda de alguma coragem líquida. Nunca teria coragem de cortar o seu longo cabelo como todas as amigas haviam feito! Estava fora de questão, nem pensar!
Depositou umas gotas de Shalimar no pescoço com o dedo indicador, e levantou os olhos para o espelho, apreciando-se uma ultima vez. Bom, talvez mais um colar não fosse má ideia.
A noite de Outuno caía fria, e o vento levantava as folhas do passeio empedrado e luzidio. Mas nem o mau tempo demoveria Eloise de sair naquela noite.
Lá fora, um automovel já a esperava. Viu Ruby, a sua melhor amiga, a acenar-lhe do banco traseiro, e Lulu e o namorado, voltavam as cabeças num sorriso prometedor.
O destino era o Casino e, com sorte, talvez pudessem entrar numa das salas privadas onde se apostavam maquias verdadeiramente escandalosas e onde tudo escapava aos olhares da lei.
Sentiu a adrenalina percorrer-lhe as veias quando abriu a porta do automovel. Eram as salas privadas que tornavam uma simples ida ao Casino, numa experiência substancialmente tentadora, como que fruto proibido.
O carro avançada devagar pelas estradas empedradas, iluminadas precáriamente. Eloise deu a mão a Ruby, apertando-a numa tensão crescente. Quase podia sentir a agitação do casino e a sua música estonteante.
Olhou para Ruby. O seu sorriso branco contrastava com os lábios rubros e carnudos. Estava linda. Nada como estar entre amigas para esquecer as preocupações do dia.
Chegamam finalmente, entre risos agitados, e cada uma passou as mãos pelos vestidos, ajeitando-os ao mais infimo promenor. O casino era um impotente edificio, barulhento mas acolhedor. Apressara-se a entrar.
O namorado de Lulu trocava palavras discretas com o supervisor da sala principal do Casino, que os conduziu até ao fundo da sala, onde transpuseram discretamente por uma porta estreitra, dissimulada por detrás de um painel com pinturas orientais.
Lá dentro o Mundo parecia outro. Era dificil ver através do fumo de cigarro e charuto, mas Eloise respirou fundo como se de um gentil aroma se tratasse. Mulheres bonitas envergavam vestidos deslumbrantes, e joias cheias de garbo, passeando-se ora sozinhas, ora de braço dado a aparentes milionários que por alí circulavam.
Oh, tanta gente, tanto brilho e elegância. Aquele mundo enebriava Eloise. Os quatro jovens passearam-se pelo salão, no meio dos risos altos, música, bebidas alcoólicas e os gritos desenfreados das apostas.
Eloise olhou para uma das mesas de jogo, ansiosa por jogar também, mas algo diferente despertou a sua atenção.
Um jovem bem parecido de modos tímidos, avaliava numa concentração desmesurada a mão de cartas que lhe calhara, de testa levemente enrugada. Eloise viu-o a pronunciar algumas palavras dirigidas ao croupier, mas devido ao borburinho das pessoas e ao piano no qual se tocava “Bye Bye Blackbird”, não conseguiu entender exactamente o que o jovem tinha dito. Havia algo nele tão diferente e chamativo. Mas o quê?
Ruby puxou Eloise para um cadeirão forrado a veludo azul com um padrão de riscas de um azul mais claro. A festa ainda agora tinha começado. Eloise ainda olhou para o jovem mais algumas vezes – ele recusava-se a sair-lhe do pensamento.
Porém a noite que avançava no meio de cigarros, bebidas, apostas arrebatadoras e companhias estravagantes.
Num momento o rapaz estava sentado, enebriado pelo jogo, mas no momento seguinte Eloise já não o encontrava em lado nenhum.
Olhou para as cartas que tinha ela própria tinha na mão e suspirou resignada. Quando olhou novamente para cima para saber se já era a sua vez de jogar, viu-o mesmo ali á sua frente. Os seus olhos entreabriram-se num pasmo prazeroso. Um sorriso discreto desenhou-se nos seus lábios carmim.
Para sua surpresa, o estranho rapaz correspondeu delisiosamente ao seu sorriso, olhando-a directamente nos olhos.
Olá – disse o rapaz, num sorriso contido.
Oh, aquele sorriso. Eloise soube então que a noite para si era ainda uma criança.
Créditos:
Modelo: Daniela Ribeiro
Maquiagem, Cabelo e Styling: Micky Santos (mais informação sobre a maquiagem dos anos 20 aqui)
Styling e Produção – Maria João Borges
Fotografia – Micky Santos e Maria João Borges
Texto – April Walsh (conheçam o trabalho da April aqui)































































